Gastronomia por Roberta Sudbrack
22/01/2008 ..
Volta...
Normalmente a volta é sempre difícil. Pensando bem, é compreensível. Abandonar uma rotina que é deliciosa, mas se aplica tão somente àquele momento específico, afinal, quem em sã consciência vai tomar café, almoçar e jantar todos os dias se não estiver de férias? Dormir até tarde. Entrar no cinema no meio da sessão e ficar até o outro meio, ou quem sabe, já que se está lá, até o final novamente! Sair do cinema, andar sem rumo – e quem precisa dele nas férias? – seguir outros...
Voltar das férias pode ser uma tarefa dolorosa. Voltar das férias sem ter o que encontrar, sem ter sentido saudades de nada, aí a coisa pode ficar feia! Nesse caso a depressão bate na porta e é recebida com honras de chefe de estado, fica para jantar e esquece de ir embora!
Não é o meu caso. Volto feliz. Feliz em voltar, descontando as feridas causadas pelo caos aéreo internacional, é claro. Sim, o caos não é só nosso, é aéreo! Feliz em reencontrar meu país, minha gente, minha casinha, meus colaboradores, minhas ervas, minhas flores, meu quintal, meu cachorro, meu blog, meus livros, meus clientes, meus sabores, minhas idéias - trazidas na cabeça - e minhas peneiras, trazidas na bagagem! Feliz por ter chegado, eu, minhas peneiras e minhas idéias...
E, agora? Colocar a engrenagem para funcionar! Eu, minhas idéias e minhas peneiras! Cada uma mais fininha do que a outra! Pureza, clareza, nitidez... Aí vamos nós!
Bom estar de volta e sentir o cheirinho do café coado outra vez!
Até!
23/01/2008 ..
Está frio...Está quente? Está brincando?
Tudo bem, brincadeira aceita! Ao invés de: onde está o Wally? Vamos de: onde estava a Chef?
Afinal, quando foi que eu fugi de brincadeira? Adoro! Segunda-feira que vem, nem bem reaquecemos as turbinas para o vôo 2008, inventaram um T&D especial que não estava previsto na casinha laranja à beira do canal. Um grupo fechado? Uma empresa... empresários engravatados? Brincadeira? Em pleno mês de janeiro? Os engravatados não estão na praia? Sem gravata, claro! Tudo bem, topo de qualquer maneira, vamos encarar! Primeiro trenzinho do ano! Volaire, vamos nós! Seja lá o que Deus quiser!
Quando à nossa brincadeira, seguem algumas dicas para os “Hercules Poirots” de plantão:
1. Vôo: longo
2. Estação: inverno
3. Dias: chuvosos
4. Fuso horário: razoável
5. Língua: musical
6. Humor local: variável
7. Chocolate: um dos melhores do mundo
8. Bebidas: uma só
9. Comida: clássica
10. Hábitos: peculiares
Está quente?
Está frio?
Até!
25/01/2008 ..
E o quiabo vai para...
La vie en rose (Edith Piaf)
Des yeux qui font baisser les miens
Un rire qui se perd sur sa bouche
Voilà le portrait sans retouches
De l'homme auquel j'appartiens
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça m'fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est lui pour moi, moi pour lui, dans la vie
Il me l'a dit, l'a juré, pour la vie
Et dès que je l'aperçois
Alors je sens en moi,
Mon coeur qui bat
Des nuits d'amour à ne plus finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Les ennuis, les chagrins s'effacent
Heureuse à en mourir
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça m'fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est toi pour moi, moi pour toi, dans la vie
Tu me l'as dit, l'as juré, pour la vie
Et dès que je t'aperçois
Alors je sens en moi
Mon coeur qui bat.
Paris bien sur!
Até!
28/01/2008 ..
Artigo na Vogue...
Tive um artigo publicado na revista Vogue! O que isso significa? Provavelmente que já posso morrer, senão, pela emoção de ter escrito onde Ignácio de Loyola Brandão escreve, o que, cá entre nós, já é o bastante para uma simples cozinheira que adora pão com mortadela. Talvez pela descrição das minhas atividades, que como descrevo a seguir no citado artigo, podem parecer bem perigosas!
Festa no inferno
Por Roberta Sudbrack
Pratico uma cozinha moderna. Uma cozinha moderna brasileira, digo isso com um orgulho digno de torcedor de futebol fanático! Gosto da modernidade, nas artes, na vida e na cozinha, mas sempre permeada pela tradição, que não faz mal a ninguém e ajuda a manter os pés no chão. Não sou fã dessa corrente moderninha de cozinha que tem como ponto de partida ou chegada, um laboratório. É mais ou menos como pensar que outrora o instrumento mais importante para um cirurgião fosse um bisturi. Logo, para um cozinheiro, elementar: uma boa faca?
Nada disso! Se o intuito for parecer “cool” numa festa discutindo sobre cozinha atual, aceite o conselho de quem não usa um, mas entende do assunto, simplesmente diga que o instrumento mais importante na cozinha atual é: um termômetro! Eu não entendo, mas, cada um na sua. E seja lá qual for a sua, moderna com pitadas de um bom caldo clássico, ou repleta de pipetas e termômetros, uma coisa é certa, no final vai tudo acabar na cozinha mesmo!
Feita essa reflexão, eu pergunto, mas o que esperar de pessoas que escolhem passar o resto de suas vidas com a barriga grudada num fogão? Todos os dias, finais de semana inclusive, enfurnados em cozinhas quentes a gritar feito uns malucos num ambiente que pode facilmente chegar aos exatos 60ºC?
Um ovo perfeito na definição da atual cozinha molecular - a mais em voga e moderninha no momento, aquela que adora termômetro e laboratório, com ar condicionado, claro! - se não for cozido a exatos 65º graus centígrados, não presta. Avaliando por esse prisma, apesar de malucos, nós cozinheiros prestamos. Afinal, somos cozidos diariamente a 60ºC! Apenas 5ºC de diferença, dá para fazer um abatimento nesse caso, não dá?
Acontece que, na vida, no amor e na cozinha, o que para alguns é certo ou até maravilhoso, para outros pode parecer insuportável! No caso do ovo, em minha opinião, pouco importa a que temperatura ele for cozido, contanto que a gema esteja mole e seu cozimento próximo da perfeição. Digo próximo, porque a perfeição é supostamente insuportável!
Dia desses um cozinheiro da minha equipe, muito promissor, pelo menos foi o que eu pensei, apresentou-me feliz da vida um cordeiro assado, que, segundo ele, não só estaria perfeito, como, seria o cordeiro da sua vida. Ou seja, o melhor que ele poderia fazer pelo resto de sua existência. Qual não foi a sua decepção quando olhei para ele e disse: que pena. Desde então a máxima na minha cozinha é: procure diariamente o quase perfeito. Freqüentemente meus cozinheiros perguntam: mas chef, quando estará perfeito? Nunca, a perfeição estagna!
O cozinheiro promissor não está mais na minha equipe, certamente continua por aí enfurnado em alguma cozinha quente preparando cordeiros perfeitos, talvez até com a ajuda de um termômetro ou outros apetrechos típicos de um cientista. Deve estar feliz apesar de tudo.
Somos felizes apesar de tudo! O que para alguns pode parecer o inferno, para nós é uma festa diária! Refiro-me a uma cozinha em pleno vapor, soltando sei lá, 40, 50 pratos ao mesmo tempo. Cozinheiros pingando de suor, ouvindo barbaridades da Chef! Digo barbaridades, porque à 60ºC, medidos com termômetro ou não, são barbaridades mesmo! Cortando a ponta de todos os dedos sem tempo para fazer curativos apropriados. Queimando todos os cantos dos braços, correndo de um extremo ao outro, assolados pela angústia de que 30 segundos a mais ou a menos, possam terminar com as suas carreiras. Ou, em casos mais extremos, com suas vidas!
Coisas desse tipo, ou até piores, tudo em prol da excelência. A busca incessante pelo quase perfeito! Pode parecer um inferno, mas para nós, os malucos que freqüentamos esse ambiente, é, no fundo, uma grande festa!
Uma festa que tem sempre hora para começar, nunca para terminar. O DJ é sempre o mesmo, um maluco de plantão vestido de branco, com um chapéu para lá de extravagante na cabeça! - bem ao estilo mundo fashion! A música é boa, agitada. Mas o set pode variar bruscamente, de techno a blues em milésimos de segundos! A comida tende a ser boa, das melhores diga-se de passagem. Coisas incríveis podem desfilar pelo salão, do quiabo defumado ao camarão com chuchu trajando tenue de ville! É uma orgia de prazeres diária. Bom, é bem verdade que alguns deles meio sadomasoquistas, mas em compensação, outros absolutamente românticos à moda antiga, do tipo que ainda manda flores!
Até!
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